Opinião: Deixem de comparar a perseguição política no Brasil com a Inquisição!
Por Dov Z.
Me parece que o termo que tem sido utilizado no Brasil por alguns intelectuais, formadores de opinião e políticos para comparar a “perseguição política” que tem acontecido no Brasil, não tem sido feliz e chegou o momento de criticar isso.
Quero deixar claro que NÃO SE TRATA DE POLÍTICA, NEM DE LADOS E NEM DE PARTIDOS. Se trata de uma estratégia que tem se tornado cada vez mais comum para que, aqueles que se sentem ameaçados, exagerem suas posições de vítimas para tentar atrair a opinião pública.
No caso, o termo “inquisição” tem aparecido muito nos noticiários brasileiros em relação as investigações da Lava-Jato e não se referindo a sua verdadeira conotação histórica, da qual, pelo contrário, não se fala sobre isso. Este tabu histórico foi sempre mantido a distância no Brasil, por se tratar de um tradicional país cristão.
Mas agora o termo está nas manchetes. E as vítimas da Inquisição merecem que a justiça seja feita e que aqueles que se dizem vítimas desta “inquisição” moderna, agradeçam a D’us por não estar vivendo esta realidade.
A verdadeira “Inquisição” começou, oficialmente em 1478, com o Papa Sisto IV, como resultado de perseguições aos judeus que já vinham ocorrendo por mais de 100 anos pela Europa. No século anterior comunidades judaicas, especialmente da Espanha, como Toledo, Sevilla, Córdoba e Barcelona, foram cruelmente profanadas e os judeus, assassinados. Calcula-se que cerca de 50.000 judeus foram assassinados nestes ataques e outras dezenas de milhares, forçados a abandonar a fé de seus pais e as práticas diárias, para adotar uma religião da qual não acreditavam, vendo-se obrigados a mudar seus hábitos e costumes.
A “ironia” foi que depois de forçar todos os judeus a escolherem entre a cruz ou a espada (o cristianismo ou a morte), a Igreja, decidiu que a conversão dos judeus não havia sido “suficientemente” boa e o Papa Sisto IV, sob incentivo dos reis Fernando e Isabel, criou os “Tribunais da Inquisição” que, basicamente, julgavam a “sinceridade” das conversões feitas pelos judeus. Ou seja, não somente aqueles que fizeram a “triste” escolha de permanecerem vivos, eram obrigados a se converter, estes eram obrigados a querer se converter (!).
Em 1483, os tribunais da Inquisição começaram a se tornar ainda mais violentos e prender e queimar cada vez mais “cristãos-novos”, acusados de praticar o judaísmo escondido.
Em 1492, Fernando e Isabel se decepcionaram com o fato de que muitos judeus estavam preferindo viver e se converter do que morrer, e decidiram oficialmente, expulsar todos os judeus da Espanha, e obviamente, roubar todas suas propriedades.
Como funcionava a Inquisição?
Basicamente, o acusado era torturado até “confessar” que praticava escondido o judaísmo. Tendo confessado, eram queimados em fogueiras em praças públicas, a não ser que aceitassem beijar a cruz, se o fizessem, eram enforcados.
Este cenário sanguinário seguiu acontecendo até 1834 (ou pelo menos, permitido), quando a Inquisição foi finalmente abolida (não durou nem cem anos para os judeus “descansarem” na Europa e Hitler já havia subido no poder). E não somente na Europa (Espanha, Portugal e Itália – principalmente), mas também no México, Peru, Colômbia, e outros países da América Central e do Sul assim como, também, no Brasil, aonde o último “herege” foi queimado já no século 19.
Hoje, calcula-se de 5-10 milhões de brasileiros que podem ser descendentes destes judeus que foram forçados a se converter. Dentre estes, está uma pequena parte que arriscou suas vidas tentando cuidar, pelo menos de algumas tradições judaicas, tendo hoje que enfrentar um difícil dilema ao descobrir suas raízes judaicas. Mas, por outro lado, tiveram seu judaísmo arrancado a força e agora, batalham para poderem, novamente, conquistarem seus espaços nas comunidades judaicas que se fecharam, ainda mais, como resultado deste mesmo antissemitismo.
Deste modo, quando uma perseguição política no Brasil, force suas “vítimas” a abondarem suas fés e tradições milenares, obrigando-os a acreditar em um só caminho verdadeiro, deixando como opção a morte, que de um jeito ou de outro, já é rotina de suas vidas, então não condenarei a comparação com Inquisição, embora sugeriria um novo nome, para não misturar episódios históricos.
Deste modo, convocamos a todos os envolvidos a deixarem de banalizar a crueldade que até hoje tem suas raízes em mais de milhões de pessoas mundo afora e parem de comparar as investigações contra corrupção no Brasil com a Inquisição!








