A Precária Situação do Judaísmo Americano

Foi publicado o novo boletim do Fórum Pew sobre religião e vida pública, considerado um dos mais prestigiados na sua área. Para sua publicação foram entrevistados mais de 35000 americanos provenientes de distintas profissões. As conclusões obtidas pelo informativo nos mostram uma importante fonte de informação sobre o futuro do judaísmo americano.

Por um lado, de acordo com o Fórum Pew, os judeus americanos são geralmente mais ricos e mais educados que os membros da maior parte de outras religiões. O Fórum Pew afirma, que praticamente a metade dos nossos irmãos que se encontram do outro lado do oceano no Goldene Medina ganham mais de $100.000 por ano, e mais de um terço possuem um título de pós graduação.

Mamãe com certeza ficaria orgulhosa.

Entretanto, enquanto que as festas podem ser mais luxuosas e as conversas do mais alto nível, por outro lado, o judaísmo americano, ao mesmo tempo, está envelhecendo e ficando solitário.

O Fórum Pew, conclui que 51% dos judeus americanos têm mais de 50 anos, deixando-os na mesma situação da igreja protestante, que também tem esse alto percentual. Os judeus lideram também as estatísticas relacionadas com a quantidade de crianças que se encontram dentro de casa; 72% dos judeus americanos não possuem filhos nenhum dentro de casa. Mesmo que este dado possa ser considerado uma ótima notícia para quem quer desfrutar de tranqüilidade, é algo extremamente preocupante com respeito ao seu significado em relação ao futuro do judaísmo nos Estado Unidos.

É possível que os judeus americanos levem um altíssimo nível de vida, porém definitivamente se reproduzem muito menos. Quer dizer, que vivem melhor o presente, sem pensar no futuro.

É verdade que nada disto é novo para nós. Há tempo que sabemos que o judaísmo americano se encontra atravessando um processo de redução demográfica, como demonstram vários estudos realizados nas últimas décadas.

As primeiras alarmantes notícias a respeito do tema, foram publicadas no Censo Nacional Judaico de 1990-1991 e causaram muita surpresa e revolta, quando afirmaram os pesquisadores que 52% dos judeus americanos haviam contraído matrimônio misto.

Apesar dessas estatísticas terem sido refutadas posteriormente, as mesmas causaram pânico nas organizações judaicas mundiais, as quais se deram conta, repentinamente, da necessidade de modificar rapidamente suas prioridades.

Mais preocupante ainda geraram os resultados do censo realizado em 2000-2001, que concluíram que a quantidade de judeus americanos havia diminuído em 5,45%, de 5,5 milhões em 1990 para 5,2 milhões em 2000-2001. Isto significa que na média, o judaísmo americano perdeu 100 judeus por dia nos últimos 10 anos, enquanto que a população total americana aumentou em 13%.

Por outro lado, o último informe da organização Pew, é realmente interessante, especialmente pelo contexto em que foi publicado. Talvez pelo fato do censo populacional oficial dos Estados Unidos não ter incluído informação religiosa, os novos resultados que o Fórum Pew outorga, mostram que a redução no número de judeus americanos não é apenas absoluta mas também relativa.

Seguramente é fácil desmentir os dados, já que a demografia não é uma das ciências mais confiáveis, pois tenta projetar o futuro em base a eventos que não são simples de prognosticar.

Mais ainda, a  quantidade de judeus entrevistados pelo Fórum Pew, entrevistas que deram os números finais à pesquisa, foi apenas de 676 pessoas, o que parece ser uma amostra muito pequena.

Entretanto, seria muito tonto de nossa parte ignorar a realidade que nos afronta: enormes mudanças demográficas estão ocorrendo, e o judaísmo americano está gradualmente desaparecendo.

Enquanto que grandes passos são dados com o objetivo de mudar a situação, estes não são dirigidos diretamente na busca da solução do problema. Programas tais como Taglit/Birthright, que sim influenciam significativamente, são o resultado de iniciativas privadas e de visionários como Michael Steinhardt e outros, e não de profissionais bem pagos que trabalham para as organizações judaicas.

A crise que atravessa a comunidade judaica americana, a maior diáspora judaica a nível mundial, é ainda alarmante, e o relógio continua avançando. A definição de prioridades será necessária para assegurar o futuro do judaísmo norte americano, partindo de mais e melhor educação judaica, passando pela possibilidade de chegar aqueles que não se encontram ligados a nenhuma instituição judaica e melhorar a relação dos mesmos com o Estado de Israel.

Nada disto é impossível, e muito já se escreveu sobre o tema.

Mas o que resulta de maior importância neste exato momento, é aproveitar o fato da publicação do Informe Pew para pressionar aos líderes do judaísmo americano e realizar uma mudança na distribuição de recursos dentro da comunidade.

Vejamos, por exemplo, a batalha contra o anti-semitismo. Existem pelo menos três grandes organizações judaicas que se dedicam a combatê-lo. Estas, incluem a Liga de Antidifamação, que contou com um orçamento de $76 milhões no ano passado. O Comitê Judaico Americano, que tem um desembolso anual de $40 milhões e o Centro Simon Wiesenthal, que utiliza $27 milhões por ano.

Isto, soma mais de $140 milhões anuais provenientes de recursos comunitários judaicos, utilizados por grupos que promovem a mesma causa. Cada um deve pagar os salários de uma equipe de trabalho com altos diretores, aluguel, publicidade, jantares e eventos. Quer dizer, um desperdiço de dinheiro, recursos e esforços.
Imaginem talvez, se ao menos parte desse dinheiro fosse para a reconstrução de escolas judaicas, melhorias de salários dos professores e a conseqüente melhora do nível da educação judaica. De fato, ao invés de perseguir o fantasma do anti-semitismo com tanto vigor, os líderes judeus americanos, deveriam preocupar-se em eliminar a assimilação e os casamentos mistos.

Se o judaísmo americano não tomar providências e declarar estado de emergência e por a educação judaica em primeiro lugar dentro de sua lista de prioridades, tanto retórica como financeiramente, a crise anunciada pelo boletim do Fórum Pew se agravará ainda mais.

Estatísticas e consultas são importantes – porém por traz de todos esses números se encontram centenas de milhares de crianças judias, muitas das quais estão abandonando o rebanho.

É tempo de dar-lhes a importância que merecem, antes que não tenhamos mais a quem contar história.