{"id":138131,"date":"2021-05-27T16:30:58","date_gmt":"2021-05-27T14:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.shavei.org\/blog\/2021\/05\/27\/viagem-a-napoles-judaica-perdida\/"},"modified":"2021-05-27T16:30:58","modified_gmt":"2021-05-27T14:30:58","slug":"viagem-a-napoles-judaica-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.shavei.org\/pt-br\/blog\/2021\/05\/27\/viagem-a-napoles-judaica-perdida\/","title":{"rendered":"Viagem \u00e0 N\u00e1poles Judaica Perdida"},"content":{"rendered":"<p><strong>Viagem \u00e0 N\u00e1poles perdida<\/strong><\/p>\n<p>Passados quase 500 anos, descendentes de judeus marranos a viver no sul da It\u00e1lia despertaram. Enquanto muitos aderiram \u00e0 sua identidade crist\u00e3 expressando apenas uma solidariedade simb\u00f3lica com as suas ra\u00edzes, outros procuram o retorno a Israel.<\/p>\n<p>Ariel Bolstein<\/p>\n<p>Este artigo foi originalmente publicado em hebraico na p\u00e1gina de internet <em>Israel Hayom.<\/em><\/p>\n<p>Caminhar com Chiro d\u2019Avino pelo centro de N\u00e1poles \u00e9 muito mais do que apenas ver as vistas. Como qualquer bom napolitano, Chiro conhece bem o labirinto de ruas e passagens estreitas, conhece cada casa e cada pedra, e tamb\u00e9m conhece a hist\u00f3ria da sua amada cidade, algo que n\u00e3o ocorre com o resto dos habitantes. Ao contr\u00e1rio da maioria da popula\u00e7\u00e3o, Chiro consegue mergulhar nas profundezas do passado e encontrar as camadas perdidas da N\u00e1poles judaica. Com a sua dedica\u00e7\u00e3o, \u00e9 capaz de \u201cremover\u201d os edif\u00edcios das igrejas ou ru\u00ednas contempor\u00e2neas e transporta-nos no tempo, na nossa imagina\u00e7\u00e3o, at\u00e9 \u00e0s sinagogas que existiam naqueles locais h\u00e1 mais de 500 anos.<\/p>\n<p>\u2013 Aqui era a Rua dos Judeus \u2013 Aponta ele para um muro alto que bloqueia a passagem. \u2013 E aqui viviam os marranos, os judeus que foram obrigados a converterem-se e a aceitar o cristianismo, mas que em segredo continuavam a viver uma vida judaica \u2013<\/p>\n<p>D\u2019Avino, que usa uma estrela de David enorme ao peito, descende de marranos. De facto, o seu nome de fam\u00edlia faz suspeitar imediatamente das suas ra\u00edzes judaicas, j\u00e1 que se trata da palavra hebraica <em>avinu<\/em>, um cognome de Abraham. Contou-me com orgulho que este nome de fam\u00edlia prov\u00e9m de judeus sefarditas do reino de Arag\u00e3o, que tamb\u00e9m se deslocaram para Fran\u00e7a no s\u00e9culo XIII. Segundo ele, o seu nome de fam\u00edlia era muito comum na \u00e1rea de Soma e Zubiana, onde vivia uma comunidade judaica cujos cidad\u00e3os aparentemente foram for\u00e7ados a converterem-se ao cristianismo em 1515. De acordo com os registos da Inquisi\u00e7\u00e3o espanhola, quem quer que tivesse um nome judaico ou similar a judaico, era considerado \u201cde sangue judaico\u201d. Hoje em dia, em muitas caixas de correio de N\u00e1poles podemos encontrar outros nomes de fam\u00edlia t\u00edpicos dos marranos: Simauna, Escallone, Cavaliera e outros. \u2013 Todos de origem judaica.<\/p>\n<p>Naqueles dias sombrios, a convers\u00e3o n\u00e3o retirou a amea\u00e7a aos descendentes de judeus. Aos que eram suspeitos de praticarem o juda\u00edsmo \u00e0s escondidas esperavam-nos a tortura e a morte. O medo da Inquisi\u00e7\u00e3o em Espanha e no sul da It\u00e1lia era forte, e por causa disso muitos judeus abandonaram os costumes dos seus antepassados. Muitas gera\u00e7\u00f5es passaram desde que os seus descendentes se assimilaram completamente ao contexto crist\u00e3o. No entanto, acontece que nem tudo se perdeu. Em algumas fam\u00edlias, a tradi\u00e7\u00e3o judaica passou de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, escondida e talvez alterada na sua forma, mas qualquer pessoa que esteja familiarizada com a vida local reconhece o desejo de preservar as tradi\u00e7\u00f5es, mesmo que seja apenas de modo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c0s vezes, em conversa, os nossos av\u00f3s contam-nos uma tradi\u00e7\u00e3o familiar incomum que n\u00e3o coincide com o padr\u00e3o da vida normal da sua cidade natal\u2013 observa o rabino Pinchas Punturello, que trabalha desde N\u00e1poles com os Bnei Anussim do sul da It\u00e1lia \u2013Contam-me, por exemplo, sobre o costume de enterrar todos os falecidos da fam\u00edlia num determinado canto do cemit\u00e9rio, n\u00e3o entre as outras campas, ou uma tradi\u00e7\u00e3o familiar de n\u00e3o rezar na igreja principal da cidade com o resto dos vizinhos mas sim numa pequena capela remota da antiga judiaria. \u2013<\/p>\n<p>\u2013 Estas gera\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o se lembram do porqu\u00ea de fazerem estas coisas, mas sabem muito bem que \u00e9 o que os seus antepassados faziam. Algumas vezes, a estranha pr\u00e1tica \u00e9 rezarem e efetuarem cerim\u00f3nias religiosas tais como casamentos numa igreja pequenina dedicada ao esp\u00edrito santo ou a Sta. Ana \u2013Porqu\u00ea Hannah [Ana]? \u2013pergunta o rabino Puntarello \u2013Porque no cristianismo Hannah \u00e9 considerada a av\u00f3 de Jesus, e esta atribui\u00e7\u00e3o familiar implica o juda\u00edsmo pr\u00e9-crist\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Os judeus cat\u00f3licos<\/strong><\/p>\n<p>O mesmo se passa com a fam\u00edlia de Chiri, que v\u00eam de uma pequena aldeia perto de N\u00e1poles: Uma avers\u00e3o inexplic\u00e1vel a visitar igrejas, com exce\u00e7\u00e3o dos rituais necess\u00e1rios, estranhas tradi\u00e7\u00f5es de alimentos proibidos, hist\u00f3rias das av\u00f3s. Quando se deu conta de que era descendente de judeus, Chiro decidiu converter-se, mas queixa-se de que os Bnei Anussim nem sempre s\u00e3o tratados favoravelmente pelas comunidades judaicas organizadas. As suspeitas que recaem sobre eles s\u00e3o um fator de dissuas\u00e3o, e, na sua opini\u00e3o, o povo judeu perdeu assim um n\u00famero consider\u00e1vel de potenciais conversos. Mas as dificuldades n\u00e3o o detiveram, e Chiro completou o seu processo na d\u00e9cada de 1980, quando ainda muito poucas pessoas tinham ouvido falar do processo de retorno dos Marranos. Depois da convers\u00e3o, Chiro adicionou Mois\u00e9s ao seu primeiro nome, t\u00e3o caracter\u00edstico de N\u00e1poles.<\/p>\n<p>De acordo com o rabino Punturello, quase todos os dias chegam novos Bnei Anussim. \u2013\u00c9 um caso de p\u00f3s-modernidade. \u2014 Explica. \u2013A nossa \u00e9poca levou \u00e0 procura da identidade; as pessoas est\u00e3o \u00e0 procura de perten\u00e7a e de ra\u00edzes, mas a entrada na vida moderna destruiu todas as tradi\u00e7\u00f5es e ra\u00edzes na It\u00e1lia. Tamb\u00e9m assistimos diariamente \u00e0s provas que preservam os remanescentes dos Marranos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-31884 alignleft\" src=\"https:\/\/casadosanussim.shavei.org\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/viejia.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p>Paradoxalmente, os arquivos da Inquisi\u00e7\u00e3o ajudam no retorno. O bra\u00e7o investigador da Igreja Cat\u00f3lica era conhecido pela sua guarda meticulosa dos documentos. J\u00e1 aconteceu residentes do sul da It\u00e1lia sentirem que tinham ra\u00edzes judaicas, converterem-se ao juda\u00edsmo, e s\u00f3 depois, quando procuraram cuidadosamente nos arquivos, descobrirem que um dos seus antepassados tinha sido interrogado pela Pol\u00edcia do Pensamento da Igreja. O rabino Punturello traz-nos uma estat\u00edstica interessante: 70% das pessoas que se convertem ao juda\u00edsmo v\u00eam a descobrir depois que prov\u00eam de uma fam\u00edlia de Anussim, sem que tal fosse do seu conhecimento antes do processo. N\u00e3o h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o racional para isto.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 dif\u00edcil apresentar uma estimativa da quantidade global de Anussim em N\u00e1poles e no sul de It\u00e1lia. No entanto, \u00e9 claro que este fen\u00f3meno est\u00e1 em expans\u00e3o, apesar de que cada ano que passa nos distancia mais daqueles tempos em que ramos completos da \u00e1rvore familiar judaica foram arrancados \u00e0 for\u00e7a. E nem toda a gente que descobre o seu passado judaico pretende regressar ao povo judeu. \u00c9 dif\u00edcil imaginar o que se sente quando uma pessoa descobre a sua verdadeira identidade depois de tantos anos vivendo a vida como italiano cat\u00f3lico. Por vezes, diz o rabino Puntarello, depois do entusiasmo inicial pela descoberta das ra\u00edzes, os descendentes dos Marranos desaparecem.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m casos de pessoas que vieram ter com o rabino Puntarello e contaram-lhe hist\u00f3rias ficcionais com a inten\u00e7\u00e3o de confirmar uma origem judaica que na realidade n\u00e3o t\u00eam. E para al\u00e9m daqueles que querem deliberadamente \u201cfalsificar\u201d o seu juda\u00edsmo, h\u00e1 aqueles que s\u00e3o influenciados pelo que ouvem falar sobre os Marranos, pelas hist\u00f3rias dos outros, e, em total inoc\u00eancia, convencem-se de que pertencem ao grupo: \u2013A narrativa coletiva da regi\u00e3o afeta a mem\u00f3ria espec\u00edfica de cada fam\u00edlia\u2014 explica o rabino.<\/p>\n<p>No entanto, a tradi\u00e7\u00e3o oral, mesmo aquela que n\u00e3o est\u00e1 apoiada por provas cient\u00edficas ou legais, pode levar uma pessoa a embarcar na longa jornada de retorno ao seu povo. \u2013 Muitas pessoas se converteram em N\u00e1poles\u2014 diz o rabino Puntarello, que emigrou para Israel h\u00e1 oito anos. Nos \u00faltimos quatro anos em que tem estado em contacto com descendentes de Marranos como emiss\u00e1rio da Shavei Israel, teve contacto com 200 \u201ccasos verdadeiros\u201d. Para al\u00e9m de N\u00e1poles, este fen\u00f3meno est\u00e1 a ganhar for\u00e7a em outras partes do sul da It\u00e1lia: Cal\u00e1bria, Ap\u00falia e especialmente Sic\u00edlia, e os n\u00fameros reais s\u00e3o muito mais altos. Existe uma indica\u00e7\u00e3o deste facto em algo muito curioso: O sistema de impostos italiano permite que cada contribuinte doe 0,8% dos seus impostos a uma das comunidades religiosas \u00e0 sua escolha. Surpreendentemente, o maior n\u00famero de contribui\u00e7\u00f5es destas taxas para a comunidade judaica foi registado no sul da It\u00e1lia, onde, de acordo com os registos estabelecidos, n\u00e3o h\u00e1 judeus reconhecidos. Os n\u00fameros divulgados pelo governo apontam assim para a exist\u00eancia de um grande n\u00famero de Bnei Anussim, que expressam deste modo a sua identidade reprimida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Trabalho com as Ra\u00edzes <\/strong><\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o Shavei Israel foi fundada por Michael Freund h\u00e1 cerca de 15 anos, em parte para ajudar os descendentes dos Marranos espalhados pelo mundo. A atividade no sul da It\u00e1lia come\u00e7ou quando a Uni\u00e3o de Comunidades Judaicas da It\u00e1lia se encontrou com um interessante fen\u00f3meno: Os membros da uni\u00e3o quiseram promover dias culturais em v\u00e1rios locais de It\u00e1lia, para divulgar a cultura judaica. Foram a v\u00e1rios lugares do Sul, e, embora esperassem algumas dezenas de participantes, depararam-se com centenas. Para al\u00e9m disso, no fim dos eventos, os palestrantes recebiam um sem fim de perguntas por parte de pessoas que diziam descender de Anussim.<\/p>\n<p>De acordo com Freund, este despertar mostra o tremendo poder da centelha judaica, que nenhum obst\u00e1culo do mundo (nem mesmo as amea\u00e7as e a intimida\u00e7\u00e3o combinadas com o fator tempo) podem extinguir. \u2013Os seus pais foram-nos retirados \u00e0 for\u00e7a, foram levados contra a sua vontade, pela persegui\u00e7\u00e3o brutal da Inquisi\u00e7\u00e3o. Agora que os seus filhos est\u00e3o a bater \u00e0 nossa porta a pedir para voltar para casa, temos o dever moral, hist\u00f3rico e judaico de os ajudar. \u2013<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Israel deveria ter a iniciativa de localizar os descendentes de Marranos?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013Em primeiro lugar, chegou a hora de o Estado de Israel e o povo judeu reconhecerem este fen\u00f3meno aben\u00e7oado do retorno dos Anussim ao nosso povo e de agirem em conformidade, o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ir\u00e1 fortalecer o povo judeu e o Estado de Israel. Este \u00e9 o fechar de um ciclo hist\u00f3rico sem precedentes na Hist\u00f3ria das na\u00e7\u00f5es. Mesmo se algu\u00e9m descobrir que tem ra\u00edzes judaicas e escolher permanecer cat\u00f3lico em N\u00e1poles, o pr\u00f3prio facto de saber que tem uma liga\u00e7\u00e3o pessoal e familiar com os judeus vai torn\u00e1-lo mais amistoso e atencioso para com o povo judeu, e certamente n\u00e3o ser\u00e1 antissemita ou anti-Israel. \u2013<\/p>\n<p>De facto, os descendentes de Marranos querem ser amigos do povo de Israel. \u2013Por exemplo, na pequena aldeia de Caltanista, no centro da Sic\u00edlia, h\u00e1 uma comunidade que se autodenomina \u201cBnei Ephraim\u201d. Eles sabem que t\u00eam origens judaicas, e, apesar de continuarem a praticar a religi\u00e3o crist\u00e3, est\u00e3o gratos ao povo de Israel. S\u00e3o pessoas que, antes de rezarem na igreja, cantam o HaTikv\u00e1 [hino de Israel].<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-31885 alignright\" src=\"https:\/\/casadosanussim.shavei.org\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/napoles-3.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p>No entanto, na maior parte das vezes, esta situa\u00e7\u00e3o atrai (e muito bem) Marranos que, como Chiro D\u2019Avino, querem tornar-se de novo parte integral do povo judeu. A Shavei Israel apoia-os. Os descendentes de Marranos no sul da It\u00e1lia necessitam de assist\u00eancia cultural e espiritual, e a organiza\u00e7\u00e3o faz tudo o que est\u00e1 ao seu alcance para os guiar nesta \u00e1rdua jornada. Afinal, o retorno ao juda\u00edsmo depois de 500 ou 600 anos n\u00e3o \u00e9 mesmo nada f\u00e1cil.<\/p>\n<p>No entanto, de acordo com todos os envolvidos, \u00e9 certamente uma experi\u00eancia maravilhosa.<\/p>\n<p><strong>Praticantes tradicionais<\/strong><\/p>\n<p>A internet desempenha um papel central na hist\u00f3ria do despertar dos Anussim. Ao logo dos \u00faltimos cem anos, os habitantes do sul da It\u00e1lia, incluindo as pessoas que suspeitavam ter origem judaica, n\u00e3o tinham maneira de adquirir conhecimentos sobre juda\u00edsmo. O crescimento das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o contribuiu muito para a solu\u00e7\u00e3o deste problema. Qualquer pessoa interessada na hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia pode aprender sobre o fen\u00f3meno dos Marranos, conhecer hist\u00f3rias parecidas \u00e0 sua e encontrar assim inspira\u00e7\u00e3o e for\u00e7a para a continua\u00e7\u00e3o do seu processo. Assim surgiu uma comunidade virtual de Anussim nas redes sociais, considerada o catalisador da viagem de regresso ao juda\u00edsmo dos descendentes dos Anussim.<\/p>\n<p>Mas hoje em dia, a marca dos Marranos do sul da It\u00e1lia n\u00e3o est\u00e1 presente s\u00f3 no mundo virtual. Tal como diz\u00edamos, Chiro anda pelas ruas estreitas do centro de N\u00e1poles e parece estar a viajar no tempo. Na \u00e1rea conhecida como Bacoli floresce: aqui, na segunda metade do s\u00e9culo XVI, era o centro da vida dos Marranos; aqui desenvolveram uma identidade de grupo baseada no cumprimento das antigas tradi\u00e7\u00f5es judaicas. Para escapar \u00e0 vigil\u00e2ncia dos padres de N\u00e1poles, algumas fam\u00edlias deixaram as \u00e1reas pr\u00f3ximas do mar na \u00e1rea da colina de Pozilipo e estabeleceram-se em Bacoli, que era na altura considerada outra cidade. Os antigos edif\u00edcios n\u00e3o t\u00eam pressa nenhuma em revelar os segredos do passado que encerram nas suas paredes, mas j\u00e1 foi encontrada uma mikve numa casa e uma sinagoga noutra.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, aparecem mais provas. Nos registos da Igreja de Sta. Ana, \u00e0 qual pertence o bairro de Bacoli, n\u00e3o h\u00e1 registos de casamentos nem de batizados de Marranos at\u00e9 1704. Incrivelmente, permaneceram fi\u00e9is \u00e0 sua religi\u00e3o original e n\u00e3o se submeteram \u00e0s regras crist\u00e3s.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de Bacoli permaneceu homog\u00e9nea at\u00e9 \u00e0 2\u00aa Guerra Mundial. O isolamento pode ter ajudado a manter certos costumes ao longo das v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Diz-se que mantiveram a circuncis\u00e3o at\u00e9 in\u00edcios do s\u00e9c. XX, e, ainda hoje, muitas fam\u00edlias com o nome Cordoba continuam a circuncidar os seus filhos. Na opini\u00e3o de Chiri, trata-se de uma fam\u00edlia de <em>mohels<\/em>, [rabinos especialistas em circuncis\u00f5es] e \u00e9 por isso que ainda mant\u00eam esse costume.<\/p>\n<p>Os enterros em Bacoli tamb\u00e9m eram uma pr\u00e1tica que preservava as tradi\u00e7\u00f5es judaicas. Os corpos eram lavados pormenorizadamente por um homem especialmente treinado que os embrulhava em len\u00e7\u00f3is. Mesmo se fossem levados para o cemit\u00e9rio num caix\u00e3o, eram removidos e enterrados na terra apenas com a mortalha. At\u00e9 a mem\u00f3ria de outros mandamentos, tais como a pureza familiar e o cumprimento do Shabat, n\u00e3o desapareceram completamente do local at\u00e9 \u00e0 era moderna. No Shabat, as mulheres de Bacoli costumavam reunir-se nos p\u00e1tios a lerem a B\u00edblia juntas.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o culin\u00e1ria local, tal como explicada por Chiro, n\u00e3o deixa nenhum judeu indiferente. Em Bacoli s\u00f3 se cozinhava peixes com escamas, sobretudo sardinhas e anchovas. Se algu\u00e9m perguntasse porque n\u00e3o havia marisco, as mulheres respondiam teimosamente que era dif\u00edcil de preparar e que exigia muito tempo. Esta explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o convencia ningu\u00e9m, e a explica\u00e7\u00e3o que liga este costume com as regras de cashrut, passadas de m\u00e3e para filha de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, parece muito mais plaus\u00edvel.<\/p>\n<p>De uma maneira ou de outra, as comunidades de Anussim preservaram-se sob condi\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis durante meio mil\u00e9nio; um milagre. O resultado deste milagre est\u00e1 agora \u00e0 nossa porta. \u00c9 de facto dif\u00edcil reverter a Hist\u00f3ria e rebobinar at\u00e9 ao tempo em que os Marranos foram separados do povo judeu, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viagem \u00e0 N\u00e1poles perdida Passados quase 500 anos, descendentes de judeus marranos a viver no sul da It\u00e1lia despertaram. Enquanto muitos aderiram \u00e0 sua identidade crist\u00e3 expressando apenas uma solidariedade simb\u00f3lica com as suas ra\u00edzes, outros procuram o retorno a Israel. 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