{"id":137610,"date":"2021-05-27T16:16:19","date_gmt":"2021-05-27T14:16:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.shavei.org\/blog\/2021\/05\/27\/grande-e-aberto\/"},"modified":"2021-05-27T16:16:19","modified_gmt":"2021-05-27T14:16:19","slug":"grande-e-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.shavei.org\/pt-br\/blog\/2021\/05\/27\/grande-e-aberto\/","title":{"rendered":"Grande e aberto"},"content":{"rendered":"<p><em>A &#8220;Juderia Argentina&#8221; \u00e9 conhecida por sua for\u00e7a num\u00e9rica e institucional &#8211; e pela grande porcentagem de assimila\u00e7\u00e3o. Uma travessia para uma terra alternativa, que come\u00e7ou com a vis\u00e3o colonial do Bar\u00e3o Hirsch e termina com o processo de muitas pessoas que se tornaram religiosas, e que deixa tantas outras sem resposta.<\/em><\/p>\n<p><strong>Argentina<a href=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/1-300x225.jpg\" rel=\"attachment wp-att-560\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-560\" src=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/1-300x225.jpg\" alt=\"1-300x225\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&#8220;A terra de Israel ou Argentina?&#8221; &#8211; Perguntou Herzl no seu livro &#8220;O Estado Judeu&#8221;. Oitenta anos atr\u00e1s, Herzl queria saber se estabelecer-ia um Estado judeu na terra da p\u00e1tria hist\u00f3rica e geogr\u00e1fica, e deu algumas explica\u00e7\u00f5es porque, talvez seria adequado eleger a Argentina como o lar nacional para o povo judeu: &#8220;A Argentina \u00e9 um dos pa\u00edses rico em recursos naturais, com um vasto territ\u00f3rio, uma popula\u00e7\u00e3o fraca e um clima agrad\u00e1vel Ser\u00e1 para o bem-estar da Argentina dar parte do seu territ\u00f3rio &#8230; &#8220;. Herzl sugeriu que um assunto t\u00e3o importante como este, deveria ser decidido pela &#8220;Associa\u00e7\u00e3o Judaica&#8221;, em nome de todo o povo judeu, e como sabemos, o povo judeu decidiu em favor da Terra de Israel. No entanto, n\u00e3o se pode ignorar a beleza desta terra, que era conhecida por muitos como a &#8220;Paris da Am\u00e9rica do Sul&#8221;. Ao longo dos anos, criou-se o Estado de Israel, mas na Argentina tamb\u00e9m estabeleceu-se uma grande comunidade. Uma das caracter\u00edsticas dessa comunidade \u00e9 a profunda ideologia sionista. N\u00e3o por coincid\u00eancia, cerca de 70 mil judeus argentinos fizeram ali\u00e1 para Israel ao longo dos anos. A &#8220;Juderia Argentina&#8221; \u00e9 conhecida por sua for\u00e7a num\u00e9rica e institucional &#8211; e pela grande porcentagem de assimila\u00e7\u00e3o. Uma travessia para uma terra alternativa, que come\u00e7ou com a vis\u00e3o colonial do Bar\u00e3o Hirsch e termina com o processo de muitas pessoas que se tornaram religiosas, e que deixa tantas outras sem resposta.<\/p>\n<p><strong>Judeus em Quantidades<\/strong><\/p>\n<p>A Comunidade Judaica Argentina \u00e9 a maior da Am\u00e9rica Latina e uma das seis maiores comunidades judaicas do mundo, depois de Fran\u00e7a, Inglaterra e R\u00fassia. Hoje vive na Argentina cerca de 200.000 judeus, mas na d\u00e9cada de sessenta, havia cerca de meio milh\u00e3o de judeus l\u00e1. A maioria dos judeus vive em Buenos Aires, a capital, mas alguns vivem em outras cidades e outros poucos, nas \u00e1reas rurais do pa\u00eds. Entre as comunidades fora de Buenos Aires, est\u00e3o as de Ros\u00e1rio C\u00f3rdoba, Tucum\u00e1n, Mendoza, Paran\u00e1, Mar del Plata e Bariloche.<\/p>\n<p>A maioria s\u00e3o judeus Ashkenazi e uma grande minoria &#8211; cerca de 15% &#8211; sefarditas. Judeus chegaram na Argentina da Europa Central e Oriental, e da S\u00edria, Turquia e Marrocos. A primeira comunidade judaica em Buenos Aires foi fundada em 1862. Sua composi\u00e7\u00e3o era pequena, e a quantidade de casamentos muito grande. A primeira comunidade sefardita foi criada 35 anos mais tarde, perto do fim do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Pogroms, persegui\u00e7\u00f5es e pobreza na Europa Oriental levaram \u00e0 grande emigra\u00e7\u00e3o para a Argentina (antes disso h\u00e1 testemunhos de judeus Anussim que chegaram ao pa\u00eds, mas nenhum vest\u00edgio foi deixado destes). Eles vieram principalmente da Galiza, Pol\u00f4nia e R\u00fassia, e foram \u00e0 procura de um lugar melhor para estabelecer suas casas. Alguns deles se estabeleceram em cidades e parte dos assentamentos agr\u00edcolas. Assim como nos Estados Unidos, a grande onda de imigra\u00e7\u00e3o ocorreu na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XIX e no in\u00edcio do seculo XX. A quantidade de judeus da Argentina na \u00e9poca cresceu de cerca de seis mil judeus para mais de cem mil.<\/p>\n<p><strong>Col\u00f4nias do Bar\u00e3o<a href=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/2-1.jpg\" rel=\"attachment wp-att-561\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-561 alignright\" src=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/2-1.jpg\" alt=\"2 (1)\" width=\"191\" height=\"250\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>O in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o judaica na Argentina est\u00e1 relacionado com as col\u00f4nias do Bar\u00e3o Maurice de Hirsch &#8211; um fen\u00f4meno \u00fanico na Argentina.<\/p>\n<p>Embora hoje a maioria dos judeus vive em cidades, e particularmente na capital, os primeiros judeus chegaram ao pa\u00eds apenas por tentativa do Bar\u00e3o Hirsch em mover as massas de judeus do imp\u00e9rio czarista para \u00e1reas agr\u00edcolas do mundo. O Bar\u00e3o Hirsch criou a organiza\u00e7\u00e3o J.C.A, que trouxe \u00e0 Argentina em torno de 1.000 fam\u00edlias da R\u00fassia, Ucr\u00e2nia, Pol\u00f4nia e Rom\u00eania O in\u00edcio do assentamento judaico ocorreu em um vilarejo chamado Moisesville em 1889. A maioria das fam\u00edlias vieram da Besaravia, fugindo dos pogroms anti-judaicos que aconteciam. A ind\u00fastria de assentamentos tornou-se t\u00e3o comum que no in\u00edcio do s\u00e9culo XX havia em Entre Rios, cidade fornecida para o assentamento, cerca de 170 aldeias rurais e ranchos agr\u00edcolas judeus.<\/p>\n<p>Somente em Clara, por exemplo, havia 19 cidades judaicas, incluindo nomes como &#8220;Rosh Pina,&#8221; &#8220;Even Harosh&#8221;, &#8220;Rachel&#8221; e at\u00e9 mesmo &#8220;Kiriyat Arba&#8221;. Os judeus trabalhavam a terra, criavam gados e at\u00e9 mesmo desenvolviam produtos l\u00e1cteos. Esses judeus eram conhecidos por todos como os &#8220;ga\u00fachos judeus&#8221;. E alem de escapar dos pogroms, retornavam ao ideal de trabalhar a terra, como fizeram na \u00e9poca do Tanakh. Os ga\u00fachos judeus foram em sua maioria religiosos, cuidando do Shabat e das festividades, falavam i\u00eddiche, rezavam na sinagoga e at\u00e9 comiam Gefilte Fish.<\/p>\n<p>O Bar\u00e3o Hirsch estabeleceu um fundo de 50 milh\u00f5es de francos &#8211; uma quantidade enorme para a \u00e9poca &#8211; para estabelecer o assentamento maci\u00e7o na Argentina, que apontava tr\u00eas milh\u00f5es e um quarto de colonos em 25 anos. No entanto, a grande ind\u00fastria encontrou muitas dificuldades ao longo dos anos e se limitou, simplesmente, a ser um projeto de assentamento, sem a ideologia que a acompanhou desde o in\u00edcio. Em uma perspectiva hist\u00f3rica, embora o Bar\u00e3o Hirsch tentou salvar os judeus dos pogroms do Leste Europeu e permitir-lhes viver com dignidade, se sua tentativa tivesse alcan\u00e7ado a dimens\u00e3o que ele ansiava, Israel teria, ent\u00e3o, sido estabelecido na Argentina, como sugest\u00e3o de Herzl de facto.<\/p>\n<p><strong>Continua\u00e7\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o para a Argentina<\/strong><\/p>\n<p>No final dos anos 20, a Argentina era um dos poucos pa\u00edses que os judeus podiam migrar facilmente ap\u00f3s as portas se fecharem nos EUA. E, de fato, na d\u00e9cada de 1930, registrava mais de 7000 imigrantes por ano, at\u00e9 o golpe militar de 1930, o primeiro a listar uma s\u00e9rie de golpes que amea\u00e7avam a estabilidade pol\u00edtica do s\u00e9culo XX. O golpe nacionalista criou um governo anti-democr\u00e1tico, que considerou a imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito bem-vinda e limitou-a. Leis e acordos internos hostis levaram a, particularmente durante a Segunda Guerra Mundial, o pa\u00eds fechar as fronteiras aos imigrantes. Apesar disso, durante os anos do regime nazista na Alemanha, e mais tarde na Europa, cerca de 40 mil judeus encontraram ref\u00fagio na Argentina ilegalmente.<\/p>\n<p>Em 1946 havia em Buenos Aires mais de 200.000 judeus. Ap\u00f3s a Shoah, os n\u00fameros judaicos aumentaram at\u00e9 chegar a 400 mil. Muitos judeus foram particularmente a Argentina que os atraiu mais do que outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, devido ao car\u00e1cter europeu de seu povo e sua cultura. Isso facilitou a adapta\u00e7\u00e3o dos judeus da Europa e do Imp\u00e9rio Otomano, que falavam ladino, algo muito pr\u00f3ximo da l\u00edngua espanhola. Desde ent\u00e3o e at\u00e9 hoje, o n\u00famero de judeus tem se reduzido, tanto devido \u00e0 ali\u00e1 para Israel &#8211; e emigra\u00e7\u00e3o para outras partes do mundo &#8211; tanto pelos casamentos mistos. O car\u00e1cter europeu da nova terra criou um cen\u00e1rio social comum entre os judeus e n\u00e3o-judeus, e as conseq\u00fc\u00eancias s\u00e3o conhecidas.<\/p>\n<p><strong>O Cherem (excomunh\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<p>O fen\u00f4meno dos casamentos mistos come\u00e7ou a se expandir. O desejo dos imigrantes de se integrar economicamente e culturalmente na sociedade local, enfraqueceu a tend\u00eancia natural de manter casamentos dentro da comunidade. Muitos judeus se direcionaram aos rabinos de suas comunidades para que convertessem seus parceiros e autorizassem o casamento. Com base nesta situa\u00e7\u00e3o social e religiosa, nasceu na Argentina, um Cherem especial segundo a qual n\u00e3o se deve aceitar convertidos. Esta excomunh\u00e3o \u00e9 conhecida por rabinos de todo mundo, e \u00e9 a base da excomunh\u00e3o de comunidades s\u00edrias origin\u00e1rias de Aleppo em n\u00e3o aceitar convertidos. Este cherem influenciou, sem d\u00favida, o curso da hist\u00f3ria judaica no s\u00e9culo passado na Argentina, e vale a pena gastar algumas linhas sobre ele.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 20 do s\u00e9culo XX, n\u00e3o existia um rabino chefe na Argentina. Cada rabino se preocupava com sua pr\u00f3pria comunidade. Entre os rabinos mais conhecidos, estava o Rav Shaul Sit\u00f3n. O rabino Siton nasceu em Aleppo, na S\u00edria, em 1851 e cresceu junto com grandes s\u00e1bios. Ele foi nomeado Rosh Yeshiva (Autoridade da Escola Religiosa) e juiz do tribunal rab\u00ednico e, estava em constante contato com rabinos de Alepo e Israel. Durante sua visita \u00e0 Argentina, o rabino Siton viu a situa\u00e7\u00e3o decadente religiosa dos judeus e para ajudar, decidiu ficar na Argentina e fazer o m\u00e1ximo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Rabino Siton tinha uma grande capacidade de ver o futuro, e decidiu fazer todo o necess\u00e1rio para fortalecer a comunidade judaica do pa\u00eds. Quando ele viu o desejo das mulheres jovens de se casar com n\u00e3o-judeus de acordo com uma convers\u00e3o que n\u00e3o se baseava na halach\u00e1, consultou seu amigo, o rabino David Goldman, de Moisesville, e juntos eles decidiram fazer um Cherem completo sobre a convers\u00e3o na Argentina. O parceiro de Rabi Siton, Rabino Goldman, nascido na R\u00fassia em 1854, foi um grande s\u00e1bio e estudioso da Tor\u00e1 e estava em constante contato com os grandes rabinos, Rav Elchanan Spector, Rav Shmuel Salant, o Chofetz Chaim, Rav Kook e outros. Ele tamb\u00e9m havia escrito um livro de perguntas e respostas hal\u00e1chicas chamado &#8220;Divrei Aharon&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1927, o rabino Siton publicou tal excomunh\u00e3o, deixando o seguinte parecer pendurado em outdoors na cidade de Buenos Aires:<\/p>\n<p>&#8221;Uma vez que esta cidade \u00e9 muito liberal e cada um faz o que pensa e n\u00e3o tem um rabino pelo qual temer &#8230; e, portanto, toda pessoa que quer se casar com uma mulher n\u00e3o-judia, a leva para sua casa, ela se torna sua mulher, sem convers\u00e3o, ou leva tr\u00eas pessoas simples (n\u00e3o rabinos) e converte entre eles &#8230; espalhamos avisos dizendo que est\u00e1 proibido de receber convertidos na Argentina daqui para a eternidade e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel quebrar a restri\u00e7\u00e3o e qualquer um que o fizer, uma serpente ir\u00e1 mord\u00ea-lo &#8230; e quem desejar se converter deve viajar para Jerusal\u00e9m, e l\u00e1 voc\u00ea ir\u00e1 faz\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p><strong>O jovem Shaul David Siton S.T (&#8220;Sefardita puro&#8221;)<\/strong><\/p>\n<p>O Chrem n\u00e3o veio para eliminar a possibilidade de convers\u00e3o total, mas tentar criar uma situa\u00e7\u00e3o em que seja quase imposs\u00edvel de se tornar judeus (\u00e9 importante lembrar que no in\u00edcio do s\u00e9culo para viajar de Argentina \u00e0 Jerusal\u00e9m era necess\u00e1rio mais de um m\u00eas viajando por barco e exigia muitas despesas). A excomunh\u00e3o \u00e9 um exemplo do que \u00e9 chamado de &#8220;ordem tempor\u00e1ria&#8221; que foi criada para interromper processos perigosos. Mesmo o Rabino Chefe de Israel do come\u00e7o do s\u00e9culo, Avraham Yitzhak Hacohen Kook, escreveu uma carta de apoio ao Rabino Siton e concordou com as disposi\u00e7\u00f5es de seu Cherem.<\/p>\n<p>Oitenta anos depois, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o perguntar: a excomunh\u00e3o atingiu seu objetivo? A realidade \u00e9 que o n\u00famero de assimila\u00e7\u00e3o e de casamentos continuou a crescer, apesar da proibi\u00e7\u00e3o, e por sua vez, houve muitos rabinos conservadores que n\u00e3o aceitaram o Cherem dos convertidos. Em todas as comunidades ortodoxas, \u00e9 importante salientar, o Cherem se manteve de forma total.<\/p>\n<p><strong>Os judeus argentinos de hoje<a href=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/3.jpg\" rel=\"attachment wp-att-562\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-562\" src=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/3.jpg\" alt=\"3\" width=\"273\" height=\"185\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>A vida argentina de agora \u00e9 muito vigorosa e ativa. H\u00e1 mais de 70 organiza\u00e7\u00f5es judaicas e cerca de 40 escolas com mais de 18 mil alunos, que representam 50% dos estudantes judeus do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, existem 30 clubes de judeus, um campeonato de futebol judeu, jornais, cerca de 50 restaurantes kosher, dezenas de industrias de produtos kosher e dezenas de yeshivot . H\u00e1 institui\u00e7\u00f5es do hassidismo Satmer, Chabad, Agudat Israel, sefarditas, marroquinos, s\u00edrios, sionistas religiosos, seculares e conservadores. Mesmo um McDonald&#8217;s Kosher, aparentemente o \u00fanico kosher, fora de Israel.<\/p>\n<p>A comunidade judaica \u00e9 muito bem organizada por \u00f3rg\u00e3os centrais que apoiam as atividades da comunidade e a representa fora. Ao chegar \u00e0 capital, Buenos Aires, e caminhar pela rua principal, Corrientes, rapidamente chega-se no bairro do Once, um dos bairros mais populosos da cidade. Esta \u00e1rea \u00e9 o centro da vida judaica na capital. Andando um kilometro no bairro, voc\u00ea pode encontrar dezenas de empresas kosher, institui\u00e7\u00f5es judaicas, escolas religiosas, sinagogas e tudo relativo a vida judaica. Em todos os cantos se destacam as letras hebraicas nos cartazes. Devido ao n\u00famero de judeus que vivem l\u00e1, o bairro foi apelidado de Gueto, mas na verdade existem v\u00e1rios outros bairros judeus adicionais espalhados pela cidade.<\/p>\n<p><strong>E de qualquer forma &#8211; antissemitismo<\/strong><\/p>\n<p>Apesar da participa\u00e7\u00e3o de judeus na cultura, economia e sociedade da Argentina, o anti-semitismo n\u00e3o desapareceu completamente, e talvez at\u00e9 mesmo o exato oposto \u00e9 verdade. Embora a Argentina seja um pa\u00eds cat\u00f3lico, n\u00e3o houve anti-semitismo por parte do governo ou propaganda anti-semita durante a Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>No entanto, existiu antissemitismo popular, com ra\u00edzes na percep\u00e7\u00e3o que a Igreja Cat\u00f3lica estabeleceu \u00e0 seus crentes em rela\u00e7\u00e3o aos judeus. At\u00e9 hoje, voc\u00ea pode ouvir de cidad\u00e3os n\u00e3o-judeus que os judeus s\u00e3o os culpados pela morte de Jesus e devem pagar por isso. Este tipo de anti-semitismo \u00e9 constantemente publicado em materiais como &#8220;Os Protocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o&#8221;, que serviram de inspira\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o de obras &#8220;liter\u00e1ria&#8221; adicionais e jornais que cont\u00eam mentiras anti-judaicas. O anti-semitismo tamb\u00e9m existe dentro de grupos de intelectuais de esquerda e de pol\u00edticos.<a href=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/4-300x220.jpg\" rel=\"attachment wp-att-563\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-563 alignright\" src=\"https:\/\/somber-ball.flywheelsites.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/4-300x220.jpg\" alt=\"4-300x220\" width=\"300\" height=\"220\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tais pontos de vista levaram a atividades e ataques anti-semitas contra os judeus e seus bens. Estes grupos come\u00e7aram a intervir em 1910, pela primeira vez e uma segunda vez em 1919, durante a grande greve dos trabalhadores. No primeiro caso, os judeus eram vistos como revolucion\u00e1rios estrangeiros, e no segundo caso, eram culpados de ter inclina\u00e7\u00f5es comunistas e de quererem transformar a Argentina em uma ditadura do proletariado. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o houve ataques semelhantes, no entanto continua a distribui\u00e7\u00e3o de propaganda anti-semita escrita e oral at\u00e9 hoje em dia, por parte da m\u00eddia.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do nazismo e sua influ\u00eancia foi sentida tamb\u00e9m na Argentina. No in\u00edcio, esta foi expressa em particular na propaganda contra a recep\u00e7\u00e3o de refugiados judeus da Alemanha, e depois cresceu uma incita\u00e7\u00e3o que n\u00e3o parou, mesmo com a derrota dos alem\u00e3es. No ano 40 e 50, criminosos nazistas escaparam para a Argentina, onde se instalaram l\u00e1 e come\u00e7aram uma nova p\u00e1gina da vida. Seus descobrimentos e extradi\u00e7\u00f5es eram seguidas de ondas de ataques a institui\u00e7\u00f5es judaicas no pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Eichmann foi encontrado ali, e sua extradi\u00e7\u00e3o para Israel foi acompanhada por muita oposi\u00e7\u00e3o de grande parte do p\u00fablico local.<\/p>\n<p>Durante os governos militares na Argentina (1943-1946, 1976-1983), os judeus foram discriminados individualmente. Na primeira etapa foi projetada uma discrimina\u00e7\u00e3o em proibir os judeus de ocupar cargos p\u00fablicos, incluindo o ensino em uma escola, e na segunda etapa, um pior tratamento dado \u00e0 judeus durante investiga\u00e7\u00f5es e pris\u00f5es. De acordo com estimativas, cerca de 2.000 judeus argentinos desapareceram como se a terra os tivesse ingerido, durante o governo da junta militar de 1976 at\u00e9 in\u00edcio dos anos 80. No total, desapareceu durante esse tempo cerca de 30.000 judeus, sob o pretexto de agir contra o governo. Paralelamente, a continua\u00e7\u00e3o das atividades regulares da comunidade n\u00e3o foi afetada pelas leis ou pelo pr\u00f3prio governo. Os grandes ataques ao pr\u00e9dio da embaixada de Israel em Buenos Aires em 1992 e do pr\u00e9dio da comunidade judaica, em 1994, deixou muitas v\u00edtimas e as pistas dos agressores levam a autoria para o Hezbollah e o Ir\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Afastamento e aproxima\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A comunidade judaica na Argentina atravessa processos conhecidos no mundo judaico: casamentos mistos e assimila\u00e7\u00e3o por um lado, e as pessoas se tornando mais religiosas por outro. A comunidade judaica da Argentina \u00e9 considerada uma das comunidades com maiores percentagens de casamentos mistos na Am\u00e9rica Latina e no mundo, com 70-80% de assimila\u00e7\u00e3o &#8211; casamentos com parceiros n\u00e3o-judeus que muitas vezes levam \u00e0 perda da identidade judaica. Junto com estes n\u00fameros elevados de assimila\u00e7\u00e3o, a comunidade judaica vive um longo e significativo &#8220;fortalecimento&#8221; religioso, que mudou a divis\u00e3o de poder na comunidade judaica da Argentina. Se na d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo XX foi o movimento conservador que dominou, sob a lideran\u00e7a do famoso rabino Marshall Meyer, inclusive estabelecendo um semin\u00e1rio rab\u00ednico enviando rabinos para a Argentina e toda a Am\u00e9rica Latina, j\u00e1 hoje quem domina \u00e9 o movimento ortodoxo nas maiorias das sinagogas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar que ambos os processos progridem juntos e se influenciam mutuamente. Exatamente no mesmo lugar onde as taxas de assimila\u00e7\u00e3o s\u00e3o extremamente elevadas, tamb\u00e9m os percentuais de pessoas que se tornam mais religiosas tamb\u00e9m o s\u00e3o. Existe rela\u00e7\u00e3o entre os dois processos? O fato de que muitas pessoas se assimilam influencia a vida religiosa e vice-versa? Para mim, sim. Por um lado, o medo de assimila\u00e7\u00e3o, o medo de perder a identidade judaica motivam uma busca e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 cren\u00e7as e pensamentos que preservam a identidade judaica da pessoa. Quando uma pessoa ou um grupo de pessoas sente que est\u00e3o em crise, se aproximam da identidade e neste caso tamb\u00e9m da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a procura por uma maior religiosidade das pessoas, afasta muitas outras. Muitos judeus que n\u00e3o levam uma vida religiosa, come\u00e7am a olhar para os religiosos e concluem que o juda\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 para eles. Muitas vezes procuram um caminho do meio que lhes permite promover a sua identidade sem o juda\u00edsmo e mitsvot de forma ativa. Nestes dias muitos judeus n\u00e3o t\u00eam escolha. Os caminhos que existiam no passado para promover o sentimento de pertencer ao juda\u00edsmo e seu significado se perderam e perderam a sua for\u00e7a, e agora apenas a maneira religiosa parece ser uma possibilidade significativa, e isso n\u00e3o \u00e9 uma forma adequada para todos os judeus imediatamente. Os processos de aproximamento, aparentemente, criam \u00e0s vezes processos de afastamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &#8220;Juderia Argentina&#8221; \u00e9 conhecida por sua for\u00e7a num\u00e9rica e institucional &#8211; e pela grande porcentagem de assimila\u00e7\u00e3o. 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