A Hagadá – Beleza e Arte de uma Narrativa através dos Tempos

“E contarás ao teu filho…”

É interessante observar como a maneira de cumprir o mandamen­to de narrar um mesmo episódio – o Êxodo do Egito – Vehigadetá Lebinchá Bayom Hahú… (“E contarás a teu filho naquele dia…”), geração após geração, evoluiu, se adaptou, incorporou novos ele­mentos e versões, e principalmente, serviu de forma ímpar para manter viva uma das características básicas do povo judeu: sua imperativa missão de preservar a memória de seu passado, além de servir de ins­piração à criatividade artística de seus escribas, ilustradores e editores, como poucos livros o fizeram.

A Hagadá é uma de nossas mais antigas obras litúrgicas. Seu nome deriva da palavra hebraica “contar”.

Quando nos conscientizamos das muitas gerações de judeus que, em todos os países e continentes, em todas as línguas e culturas celebram o Seder como nós o fazemos, a nossa própria comemoração torna-se muito mais do que uma reunião familiar festiva, mas uma vivência da História Judaica.

A intenção da Hagadá é servir como base para a discussão do passado e das aspirações do futuro. E assim, condensando tempo e espaço para preservar a experiência judaica acu­mulada e poder revivê-la anualmente, a Hagadá atravessa os séculos.

Colocando “ordem” na festa – a Hagadá como guia do Seder

A Hagadá original foi concebida durante os tumultuosos aconteci­mentos do primeiro século da Era Comum. Foi produto de uma geração arrancada de suas raízes e quebrada em suas fileiras. Até então, a natureza do Judaísmo havia sido clara. Era um sistema sacrificatório cujas festividades religiosas giravam em torno de uma série de atos de cultos, desempenha­dos pela classe sacerdotal dentro do recinto do Templo de Jerusalém. Os peregrinos, em Jerusalém, passavam a véspera de Pessach consumindo o cordeiro pascal que haviam sacrifica­do no Templo na tarde daquele dia e narravam a história do Êxodo numa noite que parece ter sido celebra­da sem estruturação de uma ordem definida das orações.

Dois acontecimentos daquele primeiro século, porém, conspiraram para alterar este antiquíssimo padrão: o primeiro foi a destruição do Templo no ano 70 e o segundo foi a dispersão do povo em várias seitas, entre elas, o emergente Cristianismo. Diante deste quadro sentiu-se a necessi­dade de uma interpretação definitiva do Judaísmo. Esta, a Hagadá podia oferecer. Daí em diante, judeus se reuniriam anualmente para recordar seu passado, explicar o presente e planejar o futuro.

A Mishná, obra compilada por volta do século 3, já descreve o Seder de modo muito semelhante ao nosso:

O Kidush abria a celebração. As crianças formulavam perguntas a respeito da singularidade da festa. As perguntas eram respondidas com a descrição do Êxodo e um comentário ligando aquela descrição ao momento atual. Explicava-se o simbolismo do Seder. Os Salmos do Hallel (cantados originalmente pelos Levitas no Templo) eram entoados e algumas orações finais encerravam o Seder.

A Hagadá, desde esta época prema­tura, já transcendia a mera recordação do passado e tornou-se a história de mais de um período de perseguição e salvação. O Faraó da história personi­ficava opressores recentes e a salvação arquétipa dos egípcios trazia o eco de cada uma das libertações de Israel pelos séculos afora. Esta condensação da história em uma noite comemorativa é percebi­da na interpretação dada aos quatro copos de vinho, que se relacionam com diferentes atos da redenção.

Poucas obras litúrgicas judaicas alcançaram o nível de criatividade e beleza artística, obtido pela Hagadá através dos séculos. Seu conteúdo e sua função permitiram aos artistas, ilustra­dores e pintores uma liberdade ímpar para desempenhar sua arte e imagina­ção. E também, neste aspecto, a diver­sidade das diásporas e as diversas ten­dências artísticas do meio circundante, de cada período da História, estão pre­sentes nas Hagadot manuscritas e im­pressas, desde quando estas passaram a incorporar elementos ilustrativos, a partir da criação da primeira Hagadá ilustrada, em 1300 EC, a Bird´s Head Haggadah (“Hagadá cabeça de pássaro”). Assim, começaram a surgir Hagadot com elementos germânicos (asquenazis), sefaradis (ibéricos), orien­tais, renascentistas, pós-renascentistas, chegando até a modernidade da arte da ilustração contemporânea.

No século 20 surgiram novos estilos de Hagadot e o número de edições ex­clusivas floresceu havendo agora mais de 3.000 versões diferentes da Hagadá, cada uma refletindo e contando o Êxodo de acordo com os pontos de vista políticos, sociais e/ou religiosos do público-alvo a que se destina.

PERÍODO ANTERIOR À IMPRENSA

Cerca de 860 EC

Mais antiga Hagadá ainda exis­tente, é criada como parte do Sidur de Amram Gaon, líder da Yeshivá de Sura. Um fragmento deste manuscrito foi encontrado na Guenizá do Cairo.

Século 10 EC

Segunda mais antiga Hagadá ainda existente, é criada como parte do Sidur de Saadia Ben Yosef HaGaon, líder da Yeshivá de Sura, entre 928 e 942 EC. Seu título: Sidur Rav Saadia HaGaon. No seu texto fica claro que não há uma unifor­mização de conteúdo. Há omissões típicas do rito israelita antigo.

Século 13 EC

Criada a primeira Hagadá separada de um Sidur. Em 1300 EC surge a mais antiga Hagadá ilustrada, de rito as­quenazi, a Bird’s Head Haggadah (“Hagadá cabeça de pássaro”), assim chamada, pois vários personagens têm cabeça de pássaro, provavelmen­te devido ao mandamento da Torá de não adorar imagens humanas. É a primeira Hagadá a introduzir o co­zimento da Matzá. Encontra-se no Museu de Israel, em Jerusalém.

A HAGADÁ DE SARAJEVO (1350-1370 EC)

Encomendado para ser um presente de casamento, o manuscrito é de um requinte extraordinário, tendo sido confeccionado para caber na palma da mão. É composto por 109 páginas de pergaminho branco, cuidadosamente manuscritas e decoradas com ilumi­nuras em ouro e bronze e cores vivas, como vermelho e azul. Produzida de acordo com as tradições sefaradis, em estilo gótico-italiano predominante à época, na Catalunha, a Hagadá contém o brasão do Reino de Aragão.

O início da impressão de Hagadot foi lento. No século 16 foram editadas apenas 25 edições. Este número cresceu para 37 no século 17 e para 234 no século 18. No século 19 foram 1.269. Entre 1900 e 1960 já haviam sido impressas 1.100 edições.

História

Em 1492, com a expulsão dos judeus da Espanha, iniciou-se a odisséia dos judeus sefaradis em busca de um novo lar. A Hagadá também compartilhou este destino. Esteve na Itália, em Dubrovnik e, finalmente, no início do séc. XVI chegou a Sarajevo, onde permaneceu até a atualidade, apesar de todos os percalços.

O século 20 foi o mais conturbado na história do manuscrito. Em abril de 1941, quando os nazistas entraram em Sarajevo, um general alemão foi ao Museu Nacional de Sarajevo para “confiscar” a obra. O general ordenou uma busca no Museu, mas nada foi encontrado. A Hagadá já estava bem longe, escondida por um professor mu­çulmano, nas montanhas da Bósnia.

Durante a guerra civil de 1992 a 1995, na Bósnia-Herzegovina, o ma­nuscrito novamente desapareceu, foi escondido por um funcionário muçul­mano do Museu até o final da guerra.

Durante todo o século 20, a Hagadá só foi exposta em três ocasiões: em 1965, 1988 e 1995.

É considerada por especialistas como um dos mais valiosos objetos sacros judaicos.

PERÍODO PÓS-IMPRENSA

1482 EC

Primeira provável Hagadá impressa (apenas texto), em Guadalajara, na Espanha. Seu título: Hagadot Shel Pessach e seu autor Shlomo Ben Moshe Alkabez. Existe apenas uma cópia, na Biblioteca Nacional Universitária, em Jerusalém. O ano de 1482 é mera espe­culação, já que o impresso não contém data e local de publicação.

1486 EC

Primeira Hagadá impressa com­provada. Possuía apenas texto e foi impressa na gráfica da família Soncino, Itália. É de rito Germânico e o primeiro de dois volumes. O outro é um Machzor chamado Sidorello em italiano, de rito judaico romano (italiano).

1505 EC

Criada por Don Isaac Abravanel a primeira Hagadá com comentários, in­titulada Zevach Pessach, impressa em Constantinopla, atual Istambul. Esta Hagadá desde então já foi reimpressa em inglês mais de cem vezes.

1526-1527

Hagadá de Praga, primeira a ser impressa com texto e ilustrações, ainda existente. Usa xilogravuras para criar as ilustrações. Foi ilustrada e impressa por Gershon Ben Shlomó HaCohen, em Praga em 30/01/1526. É um marco das Hagadot impressas, com belas ilustrações, que captam com perfeição o sentimento do texto e serviu como protótipo para edições posteriores. Nela aparece pela primeira vez numa Hagadá impressa, a música de Pessach Adir Hu.

1545

A Hagadá Zevach Pessach de Don Isaac Abravanel é novamente editada, a primeira a ser impressa em Veneza. Foi impressa por um cristão, Marco Antonio Guistiani, já que judeus estavam proibi­dos de possuir gráficas próprias.

1561

Impressa a Hagadá de Mantua, Itália, usando o texto da Hagadá de Praga com mais ilustrações, pelo cristão Giácomo Eufinelli e supervisio­nada por Isaac Ben Shlomó Bassan. O tipo de expressão artística difere da de Praga (germânico), e inclui ilustrações nas margens, refletindo o período do Renascimento italiano.

1609

Em Veneza é impressa a primeira Hagadá contendo as Dez Pragas, pelo cristão Giovanni da Gara, auxiliado por Israel Daniel Zifroni. Chama-se Seder Hagadá Shel Pessach e é conhecidda como a Hagadá de Veneza de 1609. Surgiu com traduções simultâneas para o judeu-italiano, ladino e ídiche, que eram as línguas das comunidades judaicas de Veneza à época.

1697 e 1712

Edições da Hagadá de Amsterdam são impressas. É a primeira a usar ilus­trações em cobre e a incluir o mapa de Canaã com a rota do Êxodo, também o primeiro mapa impresso em hebraico. As ilustrações eram criações empres­tadas de um artista cristão, Mathaeus Merian da Basiléia, famoso em toda a Europa por suas ilustrações do Antigo e Novo Testamento. Esta Hagadá tornou-se muito popular entre as comunidades do sul da Europa e foi muitas vezes imitada.

A partir da segunda metade do século 17, com o surgimento de novos segmentos religiosos no judaísmo, multiplicam-se edições e versões de Hagadot nos ritos Reformista, Conservativo, Reconstrucionista, Hu-manista e até mesmo seculares.

Porém até o século 20 a maioria das Hagadot era baseada nas Hagadot de Praga (1526-1527), Mantua (1560), Veneza (1609) e Amsterdam(1695).

Hagada Pesaj Lançamento da Shavei Israel

Hagadá de Pêssach

De acordo com o rito dos Sábios do Marrocos.

Inclui o “BibhiluIstsánu Mimitsráim”

Elaborada por David Salgado (Elamleh)